[Primeiras Impressões] American Horror Story | Apaixonados por Séries

[Primeiras Impressões] American Horror Story

“Existem momentos em que, mesmo sob o olhar sóbrio da razão, o mundo da nossa triste humanidade pode assumir o semblante do Inferno.”

Edgar Allan Poe.

 

 

Muita gente esperava muita coisa do novo projeto da dupla Murphy/Falchuk - e não era para menos. Criadores de hits que são ao mesmo tempo campeões de audiência e figuras carimbadas nas maiores premiações da televisão norte-americana, os produtores prometeram uma série de TV que revolucionaria o terror, algo completamente inédito em termos de teledramaturgia, uma mistura perfeita de entretenimento escapista e drama de qualidade… talvez teria sido mais sábio se eles tivessem se calado. Se American Horror Story não tivesse sido tão alardeada antes de sua estreia, seria mais fácil  relevar alguns de seus escorregões e se divertir com a insana proposta de seus criadores.

O terror é um gênero incômodo. Existe um prazer masoquista em expor-se deliberadamente a algo que fará com que você se sinta mal, em buscar aquela excitação mórbida que toma conta de todo verdadeiro fã do gênero a cada guincho, a cada vulto, a cada gota de sangue. Mas esta sensação incômoda proporcionada pelo terror fictício é parecida com aquela que experienciamos ao andar de montanha russa, proporcionada por distanciamento psicológico (leia mais) – é o “friozinho na barriga“. Mas a sensação incômoda que o piloto de American Horror Story causou em mim não foi nada parecida com isso, foi mais relacionado à completa estranheza: eu simplesmente não consegui entender o que diabos Ryan Murphy tentou fazer aqui. Mas tenho meus palpites.

Acredito que o objetivo dos criadores não é contar uma história de terror, e sim um drama familiar na forma de uma história de terror. Vide a cena em que Vivien descobre a traição de Ben ou as que mostram o bullying sofrido por Violet: situações às quais qualquer família está sujeita mostradas na série sobre uma ótica perturbada, como se fizessem parte de uma narrativa de terror. Os principais temas discutidos pela série – infidelidade masculina, aborto, gravidez, relacionamentos familiares abalados, pessoas psicologicamente instáveis – também são abordados de maneira que remete a produções do gênero – a empregada vista por Ben como uma jovem sexy, Vivien possivelmente grávida do fantasma, Vivien cortando o braço do marido, o paciente adolescente de Ben, e por aí vai. Mais do que contar um drama comum com um pano de fundo sobrenatural, talvez a série esteja utilizando estes elementos de terror como metáforas para compor a trama que realmente quer contar: a da família Harmon.

Aí sim poderíamos dizer que American estaria tentando elevar o gênero a um novo patamar. O problema é que muito do que foi mostrado neste piloto contradiz essa teoria: não parecia haver um propósito naquela bagunça. o primeiro episódio da série foi um desfile de bizarrices, mal explicado, com uma edição confusa e cenas que tentavam desesperadamente causar o espanto – tão desesperadamente que fracassaram. Foram cinquenta minutos de equívocos, exageros e histeria sem sentido. O ritmo era estranho e o episódio todo ficou parecendo um trailer longo demais ou um filme de terror entrecortado. Tanta coisa embasbacante (no mal sentido) acabaram ofuscando os vários méritos do episódio.

O suspense funcionou bastante comigo. Enquanto a série não revelava seus monstros, enquanto o susto estava para acontecer, as coisas iam bem (já o que vinha depois…), e a sonoplastia contribuiu muito para isso – apesar de ter sido excessivamente creepy em alguns momentos. Além disso, as atuações não decepcionaram, apesar da falta de química comum a qualquer início de série, e alguns truques de câmera foram bacanas, bem como outros aspectos técnicos – cenários, fotografia, figurino, maquiagem, efeitos, etc., mas todos em um momento ou outro caíram no mesmo erro da composição sonora.

Por outro lado, o quanto você ficou decepcionado com a série depende muito de quais eram suas expectativas. É inegável que American é uma série curiosa. Murphy garantiu que existe, sim, um sentido dentro de tudo isso e que na season finale tudo ficará mais claro – qualquer fã frustrado de Lost vai pensar que já viu este filme antes, mas vamos ter que esperar para ver. Já existem teorias sobre a série aparecendo pela internet – “os Harmons são fantasmas”, “Ben está morto”, “é tudo um pesadelo”, “a ilha é o paraíso”, “a mansão é em outro plano”, e por aí vai. Este mal começo não significa necessariamente que a temporada inteira seguirá esta linha (os produtores garantiram que nem todo episódio será tão “intenso” quanto o piloto) e essa é definitivamente a estreia mais peculiar da TV americana nos últimos anos – seja isso bom ou ruim. Parar de assistir é que eu não vou.

É impossível tirar conclusões a partir deste piloto, porque a série apresentou-se de maneira muito ambígua. O episódio foi completamente fora do tom e pareceu mais um delírio megalomaníaco do que uma introdução a um microcosmo de medos e transtornos parapsíquicos. Ainda assim, se tivermos um pouco de boa vontade e nos destituirmos de pré-conceitos em relação aos envolvidos na produção, vemos que American ainda pode mostrar-se uma série de qualidade e cumprir o que prometeu sua campanha de divulgação: é fácil deixar-se envolver pelo clima do seriado, que desperta curiosidade graças a sua bizarrice e diversas possibilidades de desenvolvimento.


19 Comentários

  • “Murphy garantiu que existe, sim, um sentido dentro de tudo isso e que na season finale tudo ficará mais claro”

    Nem assisti Lost, mas acho muito chato quando uma série se propõe a ter algum sentido só no final da temporada.

    Não gostei desse piloto (fiquei com medinho – porque eu sou cagona mesmo – nos 5 primeiros minutos, mas só), por todos os motivos que você apontou, João. Cheguei a sentir vergonha alheia em algumas cenas até.

    Não ando com muita paciência com as novas séries… como já assisto coisa demais, adotei a postura de “gostei do piloto, vejo mais alguns eps. Senão, corto logo”.

    E esse vai ser o destino de AMS na minha lista =/


    • interpreto isso como um “calma, a gente tá construindo a história, já já você vai entender tudo e achar genial”, o problema é que essa promessa nem sempre é cumprida :~


  • Será que sou a única no mundo que realmente gostou dessa série?


    • Também gostei da série Fernanda, o segundo episódio melhora bastante, acho que o que mais me atraiu na serie foi o fator bizarrice, o que até me fez ignorar o fato de ser uma série produzida pelo Ryan Murphy.


      • Depois de Glee (que por sinal acho ótima como uma série pra passar o tempo), sinto que as pessoas ficaram com uma certa má vontade com o Ryan e esquecem que ele fez Popular e Nip/Tuck, que eram excelentes e que também lidavam com o bizarro…


  • Eu assisti aos dois primeiros episódios da série e sinceramente não estou gostando.
    Sei lá, nada faz sentido. E não é POSSÍVEL que uma família permaneceria em uma casa onde acontecem coisas BIZARRÍSSIMAS como o que houve nesse segundo episódio.
    Acho que estão forçando um pouco a barra, sei lá. Mas vou continuar assistindo por enquanto pra ver onde dá, não gosto de desistir de uma série.
    Quanto ao terror em si, confesso que fiquei com medo na cena do porão no piloto, mas acho que é porque sou medrosa mesmo hahahaha


    • Justamente por conta das bizarrices do segundo episódio é que a Vivien quer ir embora, não!? Pelo menos foi o que ela disse no fim do episódio. O negócio é saber o que a Moira, a Constance e o Tate vão fazer pra essa família continuar lá…

      Quanto a morar na casa, acredite que tem pessoas que não ligam a mínima de morar em casas tidas como mal assombradas. Acham que é besteira e mito…


      • Ah, ela quis se mudar mas sabemos que isso obviamente não vai acontecer.

        Não sei, não consigo deixar de achar forçação de barra. Espero que as coisas comecem a de encaixar.


      • Também acho que a Constance, o Tate (que acho que é filho da Constance, aquele que ela disse que era perfeito, mas tinha se ‘perdido’) e a Moira vão fazer algo para a família continuar, ainda mais que a Vivian está esperando um filho daquele ser mascarado.
        Fiquei pensando.. será que ele não é o pai dos filhos da Constance? Como ela está velha e não pode mais ter filhos, ele tratou de engravidar outra.
        Viajando muito agora, quem sabe até ele não tenha tido um caso com a Moira e por isso a Constance matou ela (se é que ela estava falando sério quando disse que a mataria de novo), né?


  • Nossa, acho que vocês foram muito cruéis na Review, mas eu concordei com a maioria das coisas (vai entender), mas eu gostei da série…


  • Essa série é um lixo. O trailer era interessante, dava a entender que seria “a série” do ano. Que decepção foi ver toda essa bagunça. Por um momento acreditei na capacidade (se é que existe) do Ryan Murphy escrever algo descente.


  • Mais eu amei ;_; , o epi 2 é melhor pode ter certeza, quer dizer eu amei os dois!
    UHSAUSHUAHSUASH


  • Eu sou o dos que amou a série. Primeiro por ser viciado em terror e suspense. É meu gênero preferido. Segundo que adoro duas séries que o Ryan Murphy criou (Nip/Tuck e Glee). Então quando eu soube que teria série de Ryan Murphy com Brad Falchuck + terror/suspense eu já tinha ficado ansioso. E adorei os dois primeiros episódios e já quero ver o terceiro! Acho que vem muita coisa boa por aí.

    E tenho quase certeza de que aquele menino e a empregada estão mortos. A empregada já é certeza né, porque a vizinha lá disse no primeiro episódio que não queria matar ela (a empregada) de novo.

    E pô, demorou essa review, hein? A série já estreou um tempão e só agora sai review do piloto? Vamos agilizar aí!


    • acho que o Tate ainda está vivo, mas tem algum tipo de poder, tipo evocar espíritos. a empregada deve estar lá desde que o mundo é mundo com o intuito de seduzir os homens que moram lá e seduziu o marido da Constance, por isso ela a “matou”, e deve ter sido aí que ela percebeu que a Moira era um fantasma.


  • Bom, eu curti! Vou ver o 2° Ep. amanhã, e confesso que gostei. Mas vai muito da espectativa criada sobre a série, como disse brilhantemente o João Miguel. Eu nem sabia da existência desta série. (Agora que estou entrando de cabeça no mundo viciante das séries, antes eu só assitia e mais nada.) Sendo assim, eu não esperei nada, simplesmente assisti o piloto por assistir e gostei!
    Eu como professor de história e sociologia, encontrei diversos pontos do mundo caótico e sociedade em deterioração que nós vivemos: Traições, mentiras, ilusões, bullying, problemas psicológicos extremados, e diversos outros pontos.
    Agora, é certo que criei uma mega expectativa para os outros epsódios. Pode ser que na próxima review eu esteja reclamando!
    Bom início de série para todos!
    João Miguel parabéns! Bela análise!


  • alguém me diz por favor que música é aquela quando o tate tá conversando com a violet no sotão. pfta


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