[Primeiras Impressões] O Brado Retumbante | Apaixonados por Séries

[Primeiras Impressões] O Brado Retumbante

Sem spoilers.

 

 

A teledramaturgia brasileira sempre dialogou com a política, seja ela o foco da narrativa, como em O Bem Amado e Anos Rebeldes, ou um pano de fundo para dramas pessoais, como em Queridos Amigos. Infelizmente, o tema vinha sendo deixado de lado na TV, renegado a produções de pouca relevância, como a vergonhosa Amor e Revolução. Neste sentido, a nova minissérie da Globo resgata o tema e dá a ele um tratamento de qualidade: Se Dercy de Verdade não fez muito barulho, O Brado Retumbante é uma forte candidata a nova produção antológica da emissora, no patamar de A Casa das Sete Mulheres e Agosto.

Muita gente que eu conheço só liga a TV para assistir a filmes ou a produções do exterior – e eu não os julgo. Os canais abertos brasileiros dão exemplos tristes de manipulação, pão e circo e baixa qualidade em geral. Garimpar no meio de tanta porcaria programas que valham a pena é uma tarefa cada vez mais difícil. Por isso, esforços como O Brado Retumbante, no que diz respeito à dramaturgia, merecem nossa atenção. A questão política, se a minissérie seria ou não o início de uma campanha pró-Aécio da emissora, não me sinto na competência de julgar, e nem é este o objetivo deste post, que foca-se nos seus méritos enquanto ficção televisiva.

Um político sonhador, idealista, encarado sem seriedade por seus adversários, apesar da opinião pública favorável, vê-se repentinamente assumindo o cargo de Presidente da República, que ele nunca almejou nem mesmo em seus sonhos mais absurdos, após um acidente aéreo. Essa história seria muito mais interessante se desenvolvida em um ritmo mais lento, com maior enfoque no psicológico de seus personagens. Mas é um pouco utópico esperar que a série seja uma The West Wing tupiniquim: O Brado Retumbante tem o desafio de agradar um público preguiçoso, de trazer os bastidores do Planalto para a TV aberta em um país onde todos saem da sala quando começa o horário político.

O primeiro episódio, O Presidente Acidental, apresenta as situações, os personagens e suas funções dentro daquele panorama político nem tão fictício assim com todo o didatismo que o tema lhe permite, desde jornalistas explicando tudo pormenorizadamente à audiência a personagens lembrando constantemente ao protagonista Paulo Ventura (Domingos Montagner, Cordel Encantado) os cargos ocupados por seus adversários. Esses recursos, entretanto, não chegam a irritar, e são mais do que necessários no primeiro episódio de uma série que tem como lead-in o Big Brother Brasil – programa cuja audiência, no geral, é desatenta e gosta de tudo mastigadinho.

A trama apresentada foi mais do que satisfatória. Os desafios que Paulo tem à sua frente, tanto em sua vida pessoal quanto em seu governo, instigam e te fazem querer acompanhar mais. A minissérie nem tenta abandonar a moral preto-e-branco, as tramas novelescas ou os alívios cômicos caricatos, mas faz tudo isso com inteligência. Você não se sente assistindo a uma novela das oito melhor produzida: é um material diferenciado e superior em todos os aspectos. O roteiro funciona bem para a audiência convencional e também para nós, que preferimos a qualidade da TV lá de fora e ficamos constantemente frustrados com o cancelamento precoce de boas produções nacionais, como a divertida Decamerão. Gregos e troianos saem satisfeitos desta positiva experiência.

Os personagens introduzidos até aqui são bons, mesmo que relativamente simples. Para tentar tirar o protagonista da apática posição de bom moço, o roteiro caracteriza-o como um mulherengo cafajeste, o que o torna mais real, mas nada dúbio e longe do anti-heroísmo. Mesmo assim, ele é carismático, suas atitudes são, de certa forma, compreensíveis e a atuação de Domingos torna-o crível (vide a ótima cena final, em que ele toca o hino nacional em um oboé). Antônia (Maria Fernanda Cândido), a ex-mulher de Paulo que aceita manter com ele uma relação de aparências até que seu mandato como presidente acabe, é uma personagem densa, ressentida, deprimida, e ao mesmo tempo forte e elegante, a típica esposa de protagonista que não consegue equilibrar os negócios com sua vida familiar (uma versão menos chata da Skyler, de Breaking Bad). O ótimo Cacá Amaral é Saldanha, inseparável grilo falante de Ventura, que aconselha-o em todos os âmbitos de sua vida, em uma amizade de longa data que lembra a de Leo e Bartlet da já citada The West Wing.

Maria do Carmo Soares interpreta a mãe de Paulo, Julieta, a melhor personagem cômica da minissérie, mesmo que incorpore o esteriótipo da velha rabugenta. Alessandra (Alinne Rosa, vocalista da banda Cheiro de Amor) é a amante de Paulo, que promete causar problemas para o presidente e rendeu uma cômica reviravolta no final do episódio. No grupo dos vilões, temos os geniais José WilkerLuiz Carlos Miele como o Ministro Floriano e o big bad Senador, respectivamente. Eles pouco fizeram no episódio e aparentam ser personagens bastante planos, mas a cena no banheiro (com direito a palavrão e tudo) foi suficiente para torná-los interessantes.

Outros personagens apresentados, mas sobre os quais não sabemos muito, são a repórter Lúcia Wolf (Cristina Nicolloti), a terapeuta Regina (Ida Celina), o garçom “amuleto” de Ventura Oscar (Francisco Gaspar), o geek-prodígio Spencer Reed Otacílio Júnior (Jui Huang), a deputada protegida de Paulo Fernanda Drummond (Mariana Lima), a filha mais velha de Paulo, Marta (Juliana Schalch) e seu marido empresário Tony (Leopoldo Pacheco). E novos personagens aparecerão em breve, inclusive o polêmico filho de Paulo.

A produção tem ares cinematográficos. A câmera imita a de um documentário e a fotografia é sóbria, dando o tom de seriedade que a minissérie pede. Os cenários estavam impecáveis (ótima sacada transferirem o Palácio do Planalto para o Rio) e a produção é caprichada (os recursos gráficos me lembraram de Fringe). O roteiro usa alguns momentos da história política do Brasil e do exterior para fazer-se mais palpável, e o resultado é bastante positivo.

Minha recomendação é que você assista O Brado Retumbante, seja quais forem suas preferências políticas. Provavelmente é a melhor obra de ficção nacional na TV aberta, atualmente. Mas recomendo que aqueles que costumam ser chatos com produções brasileiras (não críticos, mas chatos, implicantes) passem longe. Já li críticas ao enredo, porque um presidente e um vice-presidente nunca viajam no mesmo avião (isso quando análises de DNA em séries americanas são feitas em cinco minutos), por não retratar a realidade da política brasileira (sendo que o slogan da minissérie é “O Brado Retumbante: um país, um presidente e uma realidade ideais“) e por não educar o telespectador brasileiro enquanto cidadão votante (sendo que esta nunca fora a pretensão da série – e se ela não educa, não colabora com a alienação). Para os profissionais que trabalham com mídia audiovisual no Brasil, colocar material inteligente e de qualidade no ar já é um desafio tremendo, portanto não há porque ficar gastando seu tempo tentando dificultar as coisas.

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17 Comentários

  • Eu gostei bastante, e olhe que não é qualquer coisa nacional que me agrada. A série parece bem feita e os personagens estão no ponto.


  • Pois é João Miguel, não assisti todo o episódio, tá gravado, minhas preferências políticas me deixam com os dois pé atrás com a série, mas não vem ao caso, não é mesmo?

    Bom, achei que a série é muito bem produzida e tem tudo para ser uma grande obra. Como conversava com Cristal ontem antes de dormir, a questão de Presidente e Vice morrerem em um mesmo voo é tranquila, é licença poética. E vamos ser honestos, a grande maioria do público, ainda mais vindo do BBB, não conhece as práticas da segurança presidencial, rsrs. E sim, é tão verossímil quanto a identificação de DNA de CSIs e câmeras de altíssima resolução em qualquer birosca assaltada nas ruas de “nova iorque” nas séries policiais.


    • pelo histórico da emissora, eu acho bem capaz que seja uma espécie de propaganda política pró-PSDB, e isso também não me agrada. mas julgando enquanto série de tv, vale a pena ser assistida.

      e sim, as pessoas são cri-cri demais com esse tipo de coisa. em séries médicas por aí eles inventam síndromes que não existem, fazem cirurgias que não fazem sentido nenhum, e séries jurídicas vivem inventando/distorcendo leis e ninguém vê problema, mas se é uma série brasileira, tem que ser um documentário 100% realista e preciso. um cara em outro blog disse que isso era um “furo no roteiro” – oi?


  • ótima série nacional, a rede Globo por incrivel que pareça vem fazendo boas séries como Aline e A Mulher Invisivel que já acabaram, mais essas duas em um tom mais leve e divertido.
    Já O Brado Retumbante mostra uma ótima estrutura intelectual, com uma fotografia diferenciada e de ótima qualidade, um roteiro muito bom e com personagens interessantes, estou muito animado, séries políticas sempre são muito boas.
    Me lembro da melhor série Brasileira na minha opinião que foi JK em 2005 com José Wilker e Wagner Moura como Juscelino nas duas fases! espero tanto de O Brado Retumbante quanto foi JK!!


    • também gostava muito de Aline e JK, Eddie. uma pena que eles tenham cancelado Aline precocemente :/

      A Mulher Invisível eu assisti bem pouco, mas achei bacana.


  • Capacidade para este tipo de produção ela sempre teve, mas pra que aumentar os nvestimentos quando o velho formato estava dando resultado, nosso pais é grande, mas a cabeça do povo esta mudando, aos poucos, mas esta. É bom ver os profissionais brasileiros mostrando seu talento.


    • pois é, a audiência não pede mais do que Domingos Legais e Finas Estampas da vida, e geralmente produções mais “cerebrais” (sem querer rotular essa minissérie como ‘cult’, porque ela está muito longe disso) não vingam…


  • Gostei bastante da serie, e gostei bastante do formato é uma narrativa central, mas tem uma historia por episodio que se encerra algo incomum numa produçao brasileira.Achei o presidente um personagem interessante, um cara simples, mas honesto tentando fazer o que pode e os fracassos dele mostram que nem tudo pode dar certo.


    • sim, André, eles fizeram isso para atrair o telespectador casual. também curti.

      a série tem um otimismo que definitivamente não se aplica à realidade da política brasileira, mas enquanto ficção, é bacana de se assistir.


  • Melhor programa da TV no momento, apesar de tratar de um tema que não agrada a boa parte dos telespectadores a serie é de uma qualidade no texto como a muito não se via na Globo e tenta mostrar como é o descaso de alguns políticos corruptos com o que pensa o cidadão, também li algumas criticas sobre o fato do presidente e seu vice terem viajados juntos no mesmo helicóptero ( Obra de Ficção )e de alguns esquerdistas alienados chateados por verem o seriado descer o bambu em alguns funcionários públicos (aquela minoria que não faz porra nenhuma, só come e dorme e recebe por isso no fim do mês) mais fazer o que né, para agradar a cambada da seita da estrela vermelha só se fizerem uma serie idolatrando o molusco semi-alfabetizado.


    • o roteiro da série realmente se destaca entre as outras coisas passando na tv, e acho bobagem ficar prendendo-se a minúcias como o caso do helicóptero…

      quanto à política, não tenho preferência definida entre PT e PSDB, mas não duvidaria se a Globo fizesse algo parecido com o que estão acusando-a de fazer (Muito Além do Cidadão Kane tá aí e não me deixa mentir).

      de qualquer maneira, a minissérie vale a pena por ser uma boa produção em meio a tanta porcaria na tv aberta.


  • Sem dúvida alguma a melhor série nacional que eu já tive o prazer de ver, tem seus defeitos, mas nada que interfira em sua excelência. Recomendo fortemente.


  • Essa serie realmente me supreendeu estou gostando mt pena ela ser tao curta apenas 8 capitulos…. concordo que eles poderiam aprofundar ma nos personagens mas com apenas 8 cap fica dificil ne, antes de o Brado retunbante passou a minisserie da Dercy confesso que nao me agradou, eu adoro as miniseries da globo as ultima que vi e gostei mt foram a Cura com o selton melo e força tarefa com murilo benicio


  • depois desta maravilhosa critica . me despertou a curiosidade ,vou ver a série.


  • pena que ja acabou, gostei d+ poderia ter mais


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